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O Brasil, os juros e os bancos

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

                                                  O Brasil, os juros e os bancos

 

Os bancos brasileiros passam por sua maior transformação desde que o plano real acabou com a inflação — um processo que afeta a vida de cada cidadão e empresa do país


São Paulo - Já foi dito que o bom banqueiro, assim como o bom chá, só pode ser devidamente apreciado se estiver imerso em água fervente. Deixando a maldade de lado, é preciso admitir que a frase reflete a percepção generalizada em torno da atividade de emprestar dinheiro a juros — que tem péssima fama desde que o primeiro devedor estendeu a mão vazia ao primeiro credor.

 

Shylock, usurário saído da cabeça de Shakespeare e caricatura eterna do agiota imoral, pediu meio quilo de carne como garantia de um empréstimo (carne de seu cliente, claro). O tempo passou, o mundo avançou, mas a popularidade dos banqueiros teima em seguir no chão, muito pela ideia segundo a qual o dinheiro que ganham é fácil e à custa do fracasso do restante da sociedade.

 

No Brasil dos últi­mos 20 anos, essa cadeia de raciocínio se transformou em mania nacional. Impulsionadas pela estabilidade monetária, as maiores instituições financeiras do país cresceram e ganha­ram muito dinheiro. Somente nos oito anos do governo Lula, foram 195 bilhões de reais.

 

Tudo isso incitou a ira santa contra o lucro “obsceno” dos banqueiros. De fato, a turma se deu bem por longos anos: a rentabilidade dos bancos era frequentemente superior à das demais empresas. Mas, de uns tempos para cá, algo começou a mudar. O Brasil segue sua lenta, mas constante, caminhada rumo à condição de país normal.

 

E, por isso, a realidade conspira para que a vida dos bancos nacionais esteja se tornando bem mais difícil. Em resposta, eles começam agora aquela que é a maior transformação do sistema financeiro nacional desde a revolução que se seguiu ao Plano Real em 1994 — transformação que afeta a vida das empresas e dos cidadãos brasileiros.

 

O sintoma mais evidente do atual momento vivido pelos bancos brasileiros é o recém-anunciado resultado trimestral das maiores instituições financeiras do país. Somado, o lucro de Banco do Brasil, Itaú, Bradesco e Santander caiu 8% nos nove primeiros meses do ano comparado ao do mesmo período de 2011 — é a primeira queda em dez anos, segundo a consultoria Austin.

 

Mas a fotografia de hoje é menos impressionante que o filme dos últimos anos — que mostra o tamanho do desafio enfrentado pelos bancos aqui instalados. A rentabilidade média das mesmas instituições, que chegou a 37% em 2005, caiu para 16%, segundo a consultoria A.T. Kearney. Nos últimos sete anos, portanto, ficou bem mais difícil para os bancos brasileiros transformar seu patrimônio em lucro. E tudo leva a crer que esse processo se acentuará nos próximos anos.

 

Para quem gosta de explicações simples e erradas para situações complexas, é fácil atribuir a queda na rentabilidade dos bancos à intervenção do governo federal. Preocupada com a desaceleração econômica que já se fazia notar, a presidente Dilma Rousseff iniciou em maio uma cruzada contra os juros cobrados pelas instituições locais.

 


Revista Exame
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